terça-feira, 28 de abril de 2009

TROPEIROS – NAS IDAS E VINDAS UMA CULTURA SE PERDEU


Estava aqui "comendo" abacatada e lembrando algumas coisas que estavam passando na minha cabeça, como um filme, durante toda esta semana. Eu estava tendo lembranças de uma época de minha vida que eu não lembrava mais e que pensei não ter importância alguma. Mas, pensando bem, foi muito importante à economia do Maranhão, à formação cultural de muitos interiores de nosso Estado.
Gente, eu tava revendo na minha mente Santa Teresa do Paruá, hoje Presidente Médici, quando eu era criança. Lá fica já em região amazônica, bem próximo ao Gurupi, fronteira com o Pará.
Em um tempo onde a rua era de areia branca, fina e o asfalto era coisa apenas de pista, de BR. Onde a água da chuva escorria pelo meio da rua, literalmente. Numa época onde podíamos correr com os pés no chão, rolar pela rua...uma época onde a energia elétrica era apenas de gerador, e só das 18 às 22h, postes de pau e a lamparina era uma companhia mais que certa nas nossas noites...
Nessa época à frente de quase todas as casas havia um mourão, um pau que faz lembrar um pelourinho, que serviam para as pessoas que vinham dos interiores mais distantes amarrar seus animais, cavalos, burros, jumentos... Havia umas localidades onde a situação era ainda pior e mais difícil. Nestes interiores as coisas só chegavam sobre lombos de animais, muitos levados pelos tropeiros. E estes são os personagens que quero falar.
Os tropeiros eram homens que andavam em tropas de equinos. Eles levavam da “cidade” tecidos, arroz pilado, remédios, condimentos, correspondências e uma série de coisas. Destes interiores distantes e de difíceis acessos vinham correspondências, arroz com cascas, farinha, galinhas, patos, perus, macaxeiras, enfim, produtos de produção agrícola familiar. Eles, os tropeiros, foram peças fundamentais levando e trazendo além de produtos, rendimentos, notícias, histórias, costumes, cultura.
Quando eles chegavam em algumas quitandas para compras, trocas, vendas ou mesmo apenas para um lanche pequeno, eles amarava seus animais nos mourões, que ficavam aos pés das calçadas, e entravam para comerem sabem o quê? Abacatada com farinha ou com pão. Outras iguarias que eles comiam com muita frequência eram as seguintes: o pão ou a farinha, era acompanhamento sagrado de refrescos ou vitaminas de maracujá, cajá, banana, de uva e laranja, (estes últimos eram artificiais, da marca Q’refresco), além da famosa rapadura, que dava muito mais “resistênça” e "sustança".
Eles foram personagens muuuito importantes a vida no interior. Além do que já descrevi acima, das idas e vindas com mercadorias, um fator importantíssimo era o transporte de cartas, longe estávamos léééééguas da internet (tanto em km quanto em tempo). Muitas vezes as cartas vinham de lugares muito distantes para a pessoas dos “centos”, da baixada, como por exemplo o Umbinzal. Os correios não chegavam até lá. Então o remetente enviava a carta para o endereço da minha casa “aos cuidados do Sr. Raimundim Juruca”, meu pai. De posse da carta, papai remetia-a ao destinatário pelas mãos dos tropeiros quando estes iram no sentido do local onde morava o destinatário final.
Lembro como eram interessantes as formas como eles se arrumavam para as viagens, principalmente o cavalo destinado os transportes dos homens. Todos os arreios de couro, cabrestos, celas, tudo rebordado, decorado, muito bem acabado. Para tornar a viagem montado um pouco menos cansativa, e o máximo confortável possível, eles cobriam as celas com o chamado “coxunil”, “baldrama” ou “pelêgo”, uma espécie de manta felpuda, que no verso tinha uns bolsões enormes, fechados com botões. Nestes bolsões iam documentos, cartas, remédios, roupas e outros materiais que necessitassem de cuidados e uma certa segurança. Estes pelêgos eram colocados por cima da cela e presos por uma cilha, uma cinta que circundava o lombo e a barriga do animal. Na foto desta postagem mostra como eram usados este acessórios.
Mas, como muitas coisas do passado, com o passar dos anos, as estradas foram ficando menos difíceis, as maquinas passaram e a piçarra foi colocada em muitas vias. A energia elétrica chegou, os cavalos, os burros e os jumentos foram trocados pelas motos e pelas D-10, D-20 que passaram a levar e a trazer medicamentos, mercearias, correspondências e pessoas. As notícias e as novidades passaram a chegar mais rápido e as mudanças e alterações nos modos de vidas foram inevitáveis. Assim, se foram os tropeiros que passaram a manter suas vidas tornando-se comerciantes locais, donos de roças ou garimpeiros. Dessa forma com as idas e vindas de novas idéias, conhecimentos e novas facilidades a cultura dos tropeiros se perdeu no tempo e nunca mais eu havia ouvido falar destes homens de função indispensáveis em determinado momento da história do Maranhão.

FOTO: o homem da foto é meu pai. Não, ele não era tropeiro. Mas, coloquei esta foto pelo fato de ela mostrar como eram feito os transportes naquela época. Além disso, era justamente assim que os tropeiros arrumavam seus animais para suas longas viagens.

2 comentários:

Dona Reis disse...

Nossa!
eu queria poder voltar no tempo para não perder algumas referências tão importantes e saudosas que tenho. Tempos bons que não querem mais voltar!
Bjos,moreco!
Lindo texto!

Turismo, Cultura e Cia Ltda disse...

Sabe Dona... às vezes bate uma saudade de um tempo em que a tecnologia não tinha tanta ousadia para facilitar a vida, mas que a "ingenuidade" da época faziam parte da nossa felicidade.